Método socrático e método sofístico: um breve paralelo

Jackson de Sousa Braga

Sócrates é um dos filósofos mais conhecidos de toda a humanidade. Ele se opôs a um grupo famoso e tido como manipulador do poder intelectual de até então, os sofistas. Tomando como base essas ideias, pretende-se aqui, mesmo que de forma rápida, apresentar o método socrático e sofístico e também fazer uma breve análise da relação entre eles.

Método socrático

Conforme é sabido, Sócrates não deixou nenhum escrito, porém seus discípulos encarregaram-se de transmitir à posteridade suas ideias e propostas epistemológicas e filosóficas. Sócrates valia-se de dois métodos famosos, que o fizeram trazer grandes reflexões para os seus interpelados e discípulos[1]. Aqui pretendemos apresentar estes dois métodos e suas características.

O primeiro método famoso em todo pensamento socrático é a Ironia. Não se deve aqui, assumir o sentido desse termo conforme a nossa língua corrente, ou seja, como zombaria, sarcasmo ou sátira. Mas, antes, como o sentido original da palavra grega, isto é, como questionamento que traz uma refutação em busca do conhecimento e da percepção da ignorância[2]:

A refutação (elénchos) consistia, em certo sentido, a pars destruens do método, ou seja, o método socrático levava o interlocutor a reconhecer sua própria ignorância. Primeiro ele forçava uma definição do assunto sobre o qual a investigação versava; depois, escavava de vários modos a definição fornecida, explicitava e destacava as carências e contradições que implicava; então exortava o interlocutor a tentar nova definição, criticando-a e refutando-a com o mesmo procedimento; até o momento em que o interlocutor se declarava ignorante. (REALE, 2007, p.102)

Contudo, Sócrates não era um cético e sim uma pessoa crente na verdade que habitava no ser humano e que era necessário um processo/método para descobri-la. A este método Sócrates deu o nome de Maiêutica, ou seja, a parturição da ideia: “Frequentes vezes comparava sua tarefa a de uma parteira, profissão de sua mãe, dizendo que ele mesmo não tinha que dar à luz sabedoria, mas apenas ajudar os outros a parir suas ideias.” (STÖRIG, 2009, p.124).  Partindo do método irônico-refutador, Sócrates ajuda ao outro a ir em busca da verdade e principalmente empenhava na descoberta e na questão que sempre o incomodou: “Conhece-te a ti mesmo”.[3]

Portanto, as grandes marcas metodológicas de Sócrates no pensamento da Paideia grega são seus métodos diferenciados e que faziam o pensamento, as ideias e a verdade assumir seu caráter reflexivo e epistemológico, não o deixando como opinião (doxa) e/ou retórica.

Método sofista

Devido ao pensamento de Platão e outros discípulos de Sócrates, os sofistas foram vistos apenas como um mercantilizadores do saber. Entretanto, com os estudos atuais e toda a reflexão histórico-crítica, os pensadores têm os apontado como grandes conhecedores e retórico de seu tempo que passavam seus conhecimentos aos que podiam remunerá-los (existem autores que afirmam que os sofistas também possuíam turmas gratuitas), sem ter por finalidade somente o caráter financeiro, mas antes a democratização do saber (LISBOA, 2011, p. 113-116). Com o intuito de conhecer seu método e suas ideias pretendemos aqui apresentá-los, para podermos fazer uma análise junto às características socráticas.

O método sofista assumia um caráter de ensinamento dos saberes que obtinham de pensadores anteriores e também da capacidade de defender a ideias e pensamentos que o sujeito tinha. Sua característica mais marcante não é a busca do saber, mas antes de uma formação sobre os recursos da linguagem e também sobre a arquitetura das ideias pessoais em busca da conquista e vitória, retórico/oratória, do outro e seus argumentos.

Além disso, deve-se a eles grandes conquistas, destacando-se três realizações:

[…] os sofistas pela primeira vez na filosofia grega, desviaram o olhar da natureza e dirigiram-no mais amplamente para o homem; segundo, foram eles os primeiros a fazer do pensamentoobjeto de pensamento, dando início a uma crítica de suas condições, possibilidades e limites. E por último submeteram os padrões dos valores éticos a uma reflexão perfeitamente racional, com isso abrindo possibilidade de a ética ser tratada cientificamente, e de fazer-se dela um sistema filosófico coerente. (STÖRIG, 2009, p.120)

Assim sendo, devemos superar o preconceito trazido no pensamento filosófico sobre os sofistas, como somente charlatões do saber e assumi-los também como pensadores da realidade humana e homens que distribuíam seu conhecimento a todos, mesmo que de forma remunerada. Ainda devemos ter consciência de seu papel significativo de atenção à reflexão antropológica e ética.

Considerações finais: um breve paralelo

Aqui não pretendemos deixar a reflexão se findar, mas antes apresentá-la como um possível caminho de aprofundamento diante das realidades e comparações feitas entre o método socrático e o método sofista. Para isso, pretendemos apresentar tanto os aspectos de encontro do pensamento de Sócrates com os sofistas, bem como suas divergências.

Quanto as pontos de encontro entre Sócrates e os sofistas apresentamos 3 como mais marcantes, a saber: ambos acreditam na capacidade de todo o ser humano conhecer e pensar; ambos utilizam métodos para o processo de conhecimento, ainda que os empreguem de forma divergente; tanto Sócrates (“Conhece-te a ti mesmo” e o conhecimento é virtude) como os sofistas (“o homem é a medida de todas as coisas”) se atentam para questões antropológicas e éticas em detrimento das científico-físicas[4].

Quanto aos pontos de divergência entre o método socrático e o sofístico, podemos também apontam 3 principais características, cuja relação é impossível desfazer: Sócrates se preocupa em descobrir a verdade ou o saber verdadeiro, em contrapartida os sofistas estão preocupados em vencer o discurso, com argumento retórico e não descobrir a verdade – alguns são considerados até mesmo cético ou relativistas, ou seja, que não acreditam em uma verdade ou não podem atingi-la; Sócrates se considera um desconhecedor ou ignorante contra os sofistas que se consideram os verdadeiros sábios; Sócrates modifica o centro do saber: “Mas o que Sócrates aplicava era uma forma particular de conversa e ensinamento. A situação normal, em que o discípulo pergunta  e o mestre responde, é nele invertida. É ele quem pergunta” (STÖRIG, 2009, p.124).

Portanto, não se deve considerar Sócrates e os sofistas longes e/ou totalmente contrários, mas antes ter atenção para seus devidos estilos de pensamento e de Paideia – sabendo perceber os pontos de encontro/desencontro que um tomou do outro. Além disso, esta reflexão poderá nos ajudar a superar os preconceitos investidos sobre os sofistas, que muitas vezes Platão e outros discípulos de Sócrates/Platão passaram ao pensamento e história posterior.

Referências

LISBOA, J. A. et al. Paideia: Tópicos de Filosofia e Educação. Batatais: Centro Universitário Claretiano, 2011.

REALE, Giovanni. História da Filosofia: Filosofia Pagã. 3.ed. São Paulo, 2007.

STÖRIG. Hans Joachim. História Geral da Filosofia. 2.ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2009.


[1] Sócrates não atribuía o conhecimento e as ideias como originais de si, mas dos que ele interpelava com seus questionamentos.

[2] Sócrates percebia-se como não portador do conhecimento (“Sei que nada sei”) e partia a interpelar os “sábios”, numa formula dialógica-dialética.

[3] Segundo alguns pensadores suas questões sempre se voltava para essa reflexão, devido a sua crença de que a virtude era o conhecimento. (STÖRIG, 2009, p.124-125.)

[4] Anterior a eles, a grande preocupação dos pensadores e filósofos era descobrir a origem do universo: “Todos têm como objetivo buscar uma explicação para o mundo natural, sendo, neste sentido, filosofias da natureza.” (STÖRIG, 2009, p.100)

 

 

 

 

 

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