Mobilização do povo é a única solução para a crise política, dizem analistas

“A participação restrita ao voto é um tipo de relação muito superficial”
Jornal do Brasil
André Borba *

Responsável por trazer à tona, como nunca antes no país, relações ilícitas entre representantes de diversos partidos políticos e empresários brasileiros, a Operação Lava Jato representa um marco na história brasileira. Em meio a esse cenário turbulento, o país ainda atravessa o processo de impeachment da presidente, o afastamento e a possível cassação do presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a queda de ministros citados em denúncias de corrupção e, a reboque, o total descrédito da população em relação às instituições.

A conjuntura, no entanto, pode se agravar ainda mais. As notícias de que José Dirceu, ex-ministro do governo Lula, e Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, poderiam fazer delação premiada estremeceram mais o tabuleiro do jogo político brasileiro. Nomes fortes durante os primeiros anos do governo petista, os dois, presos por conta das investigações da Lava Jato, poderiam fazer revelações que complicariam ainda mais a situação de políticos e empresários.

Diante da sequência interminável de delações, e da expectativa de que revelações mais graves podem estar a caminho, o cenário se torna cada vez mais sombrio, e de consequências imprevisíveis. Isso tudo somado ao fato de o país passar por uma grave crise econômica, com taxa de desemprego na ordem de 12% e a maior empresa do país – a Petrobras, responsável por 65% da economia do país – com seus cofres saqueados.

Para o cientista social Wagner de Melo Romão, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a saída para esse momento de crise passa pela maior participação da população na política. “É muito importante que o cidadão participe mais, se candidate, se engaje em uma campanha. Deixei de acreditar que apenas mexendo nas instituições vamos conseguir mudar a política no Brasil. A participação restrita ao voto é um tipo de relação muito superficial. A gente não constrói a democracia votando apenas de quatro em quatro anos”, comentou o professor universitário.

Para o cientista político Ricardo Ismael, da Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), as delações de Marcelo Odebrecht, da Odebrecht, e Léo Pinheiro, da OAS, poderiam ser mais significativas do que as de Dirceu e Vaccari: “A postura do Dirceu tem sido de não falar nada. Talvez o Vaccari fale por pressão da família, mas não dá para criar muita expectativa. As delações dos presidentes das empreiteiras poderiam complicar mais as coisas”.

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Saída da crise política perpassa uma maior participação dos cidadãos na política
Saída da crise política perpassa uma maior participação dos cidadãos na política
Para Ismael, para além das delações e investigações, o brasileiro deveria se interessar mais pelo sistema político-eleitoral: “Vivemos um sistema representativo, que não vai ser abolido. A reforma política é válida, mas é preciso questionar os votos de algumas pessoas, que votam em quem que não tem condições de estar lá. Muitas vezes, o eleitorado deixa de lado o voto do Legislativo e foca só no do Executivo. É preciso separar o joio do trigo e escolher bons representantes para o Parlamento, pessoas que vão defender o interesse público e ter conduta correta”.

Para os dois especialistas, outro ponto central para a superação desse momento diz respeito ao financiamento privado de campanhas eleitorais. Para Romão, é preciso rever os mecanismos de regulação da relação entre estado e mercado. “Do modo que ocorre hoje, há um sequestro do estado e da política por grupos empresariais e por setores de partidos políticos. A gente começa a melhorar a política quando há vedação das empresas de financiar os partidos políticos. As leis de concessões e licitações se mostram inoperantes, falharam no seu objetivo de regular a relação entre esses dois setores”, afirmou o professor do Departamento de Ciência Política da universidade de Campinas.

Outro aspecto importante de uma eventual reforma política diz respeito ao número de partidos políticos que existem no Brasil, segundo o docente da PUC-Rio. Atualmente, de acordo com informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 35 partidos políticos estão registrados no país. “É necessário começar pela redução do número de partidos. Essa fragmentação gera muita confusão. As pessoas não votam mais em programas, mas em pessoas”, ressaltou o acadêmico.

O financiamento privado já está proibido para as eleições municipais deste ano. No entanto, para Ismael, essa questão precisa de um aperfeiçoamento: “Em outubro vamos ter o primeiro teste. Por mais que as empresas fiquem impossibilitadas de fazerem a doação, ainda é permitido que um empresário rico financie. Ainda não está resolvido”.

* do projeto de estágio do JB

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