Uma paixão que mudou o curso da história

A relação proibida do triúnviro romano Marco Antônio com Cleópatra,marcada por festas suntuosas, desencadeou uma guerra civil com milhares de mortos.

Catherine Salles

Naquele outono de 41 a.C., a cidade de Tarso, não mais que um grande burgo da Cilícia (atual Turquia), parecia ter se transformado numa das capitais do mundo romano. Em expedição ao Oriente, o triúnviro Marco Antônio ali se deteve, convocando Cleópatra, a rainha do Egito, a prestar contas do apoio que teria dado aos assassinos de César. Já muito excitados pela presença de Marco Antônio entre seus muros, os habitantes de Tarso esperavam febrilmente a chegada de Cleópatra.

Ninguém ignorava que ela, sete anos antes, conquistara Júlio César, acompanhando-o a Roma e dando à luz um filho apresentado como sendo do ditador. Mesmo sem nunca tê-la visto, a maioria das pessoas conhecia sua reputação de beleza, sedução e inteligência. Desde o nascer do dia, um rumor avançava, vindo da embocadura do Cydnus, o rio de Tarso, e logo toda a cidade encontrava-se reunida em suas margens. Uma galera subia o rio. Sua popa era de ouro reluzente, suas velas desfraldadas eram tingidas de púrpura e dezenas de remos de prata cortavam as águas. No leme e nos cordames, nada de rústicos marujos, mas um enxame de formosas jovens vestidas de ninfas. Debaixo de uma tenda tecida de ouro, estava Cleópatra, recostada, tal como uma deusa do amor. Crianças fantasiadas de pequenos cupidos abanavam-na com seus leques. O conjunto formava um verdadeiro quadro, dedicado a Afrodite. Quando o navio acostou, toda a cidade ali estava, e Marco Antônio, que esperava a rainha na praça pública, ficou sozinho. Muito contra a vontade, precisou descer ele mesmo até o porto, onde Cleópatra convidou-o a partilhar a refeição. A festa noturna que ela organizou foi espetacular.

As peripécias do festim, difundidas pelos criados, encantavam os curiosos. Cleópatra, ao que parece, cativou o hóspede com falas aliciadoras e atitudes provocantes. Dizem que Marco Antônio, de início embaraçado, sucumbiu pouco a pouco aos charmes da egípcia. Lembravam os mais velhos que Cleópatra já tivera uma aventura com Marco Antônio, quando seguiu César a Roma. E não esqueciam que, algumas semanas antes, Marco Antônio fizera sua entrada no Éfeso fantasiado de Dioniso, cercado por Bacantes, crianças e homens vestidos de sátiros e de pãs.

E não era o que viam agora em Tarso, a união do novo Dioniso e da nova Afrodite? Em Roma, as notícias da festa de Tarso logo se espalharam. Esperavam um novo escândalo, algo semelhante àquele provocado oito anos antes pelos amores de César e Cleópatra. A classe dirigente estava ocupada demais com os assuntos públicos para dar importância a essas histórias de embriaguez oriental. Otávio, filho adotivo de César, combatia os senadores dissidentes chefiados pelo próprio irmão de Marco Antônio e por sua esposa Fúlvia.

Com grande rapidez, informações inquietantes chegavam a Roma. Longe de prosseguir sua viagem pelas províncias orientais, Marco Antônio acompanhou Cleópatra a Alexandria… Morava no palácio real e trocara suas vestes romanas pelo manto grego ou pela túnica oriental. Incapaz de se entregar a qualquer atividade séria, pois sua amante não o deixava jamais: participava das partidas de dados, bebia com ele, caçava com ele e o acompanhava em seus treinos físicos no ginásio. Com amigos da corte, os dois amantes fundaram uma sociedade: “A Vida Inimitável”. Cada um devia surpreender os demais com prazeres inéditos. Foram festins suntuosos.

Os dias de delícias, porém, tiveram fim. Dois mensageiros vindos de Roma despertaram Marco Antônio de seu agradável torpor: seu irmão e sua mulher Fúlvia tinham sido vencidos por Otávio e os exércitos partos tinham invadido a Ásia Menor, a Síria e a Judéia. Uma carta de Fúlvia, refugiada em Atenas, intimava o marido a ir a seu encontro. A intrigante Fúlvia, porém, que esperava pôr um ponto final na aventura egípcia, morreu, já bem doente. De volta à Itália, Marco Antônio conseguiu fazer um acordo com Otávio: o mundo romano foi partilhado em duas zonas de influência, o Ocidente para Otávio, o Oriente para Marco Antônio. Para selar a reconciliação, Marco Antônio casou-se com Otávia, a irmã de Otávio.

Cleópatra, sozinha em Alexandria, deu à luz aos gêmeos Alexandre Hélios (Sol) e Cleópatra Selene (Lua). Durante três anos, não viu Marco Antônio, que vivia na Itália (e depois em Atenas) com a nova mulher Otávia e as duas filhas desse casamento.
Súbito, no ano de 37 a.C., Marco Antônio rompeu a vida honrada que levava com Otávia e decidiu lançar contra os partos a grande expedição com a qual sonhava havia anos. Desembarcou em Antioquia e fez vir Cleópatra de Alexandria. Depois de três anos de separação, o encontro foi dos mais apaixonados. Cleópatra pretendia reconquistar o amante para garantir a grandeza de seu reino. Marco Antônio, por sua vez, precisava dela para dominar o Oriente e enfrentar o rival Otávio. Os dois amantes instalaram-se no mais belo bairro de Antioquia, Dafne, e reencontraram aquela boa “vida inimitável” de Alexandria. Marco Antônio reconheceu os gêmeos e casou-se com Cleópatra segundo a norma egípcia, que autorizava a poligamia. Como presente de núpcias, ofereceu-lhe Chipre, a costa síria, a Judéia e mais territórios situados na Cilícia e em Creta. Essas notícias provocaram inquietação em Roma, e, pouco a pouco, conforme chegavam as informações vindas de Antioquia, a imagem de Marco Antônio degradava-se junto à opinião pública romana.

Cleópatra acompanhou Marco Antônio e seu exército até o Eufrates. Retornou a Alexandria, depois, onde fez cunhar moedas com sua efígie e a do esposo. Desses encontros, nasceu Ptolomeu Filadelfo. Quando, ao cabo de dois anos de uma campanha em que os revezes se sucederam um após o outro, Marco Antônio retrocedeu com suas tropas até a Síria, tinha perdido muitos de seus homens. Cleópatra correu a seu encontro com os barcos carregados de roupas, comida e dinheiro.

Mas Cleópatra não era a única a lhe oferecer ajuda. Otávia, sempre fiel ao marido, chegou a Atenas com 2 mil soldados de elite armados da cabeça aos pés, munidos de provisões, animais de carga e dinheiro.

Inquieta, a rainha do Egito entregou-se então (em 35 a.C.) a um perfeito teatro. Não comia mais, derramava-se em lágrimas a cada vez que percebia o olhar de Marco Antônio sobre ela e alternava os sinais da paixão e os da aflição. Seus cortesãos admoestavam Marco Antônio: “Como podes deixar definhar uma pobre mulher que só respira por ti? Podes comparar uma esposa que uniu-se a ti por razões políticas e a soberana de um tão grande reino que, separada de ti, não poderá mais sobreviver?”
Aflito e convencido por essa dor dada em espetáculo, Marco Antônio voltou a Alexandria. Otávia ganhou Roma e instalou-se na casa de Marco Antônio com as duas filhas e os dois meninos do casamento anterior do marido. Esposa ultrajada, digna em sua dor e mãe admirável, Otávia atraía o favor dos romanos, que a admiravam e lastimavam sua sorte.

Com sua atitude, Marco Antônio rompeu os frágeis laços que ainda o uniam a Roma. Agora sem mais escrúpulos, organizou em Alexandria uma paródia do triunfo romano. Vestido de Dioniso, numa carruagem triunfal, entrou na cidade precedido por seus cativos, o rei da Armênia e sua família atados por correntes de ouro. Outros carros o acompanhavam, carregados do espólio tomado ao Oriente. Sob aclamações do povo, o cortejo chegou diante do estrado de prata, onde estava Cleópatra, sentada em um trono de ouro. A noite inteira, o povo e os soldados de Marco Antônio festejaram alegremente.

Alguns dias mais tarde, uma nova festa ocorreu no ginásio de Alexandria. Cleópatra, ornada com a veste sagrada de Ísis, e Marco Antônio ocuparam seus lugares, ambos em tronos de ouro. Em outros quatro miniaturas estavam Cesarião, suposto filho de César, os gêmeos Alexandre Hélios e Cleópatra Selene e o pequeno Ptolomeu. Alexandre, com seis anos, estava vestido como um rei persa com uma longa túnica bordada e uma tiara ornada com plumas de pavão, e Ptolomeu, com dois, usava as botas, o manto de púrpura e a touca com diademas dos soberanos macedônios.

O discurso que Marco Antônio dirigiu então à multidão teve pesadas conseqüências. Concedeu a Cleópatra o título de “rainha dos reis” e a Cesarião o de “rei dos reis”. Proclamou Cleópatra soberana do Egito, de Chipre, da Líbia e da Síria, e associou Cesarião a seu poder. Os três filhos dela foram dotados de reinos: Alexandre recebeu a Armênia, a Média e a Pártia – que ainda não fora conquistada; Cleópatra, a Cirenaica e a Líbia; Ptolomeu, a Fenícia, a Síria e a Cilícia. Até a maioridade das crianças, esse grande império seria administrado pela mãe.

As notícias vindas do Egito sobressaltaram os romanos. Otávio não perdia ocasião para tornar públicas as extravagâncias de seu inimigo: “Imaginem que, quando faz justiça, Cleópatra lhe envia palavras doces gravadas em tábuas de ônix ou de cristal… Já ouviram dizer que em pleno banquete ele deixa a mesa, afagando ostensivamente o pé da rainha, sinal entre eles para se retirarem a seu quarto? Sabem que um pintor prepara seus quadros, retratando-os como Ísis e Osíris?”
Marco Antônio não ficava atrás e distribuía por mensageiros notícias das “torpezas” de Otávio: “Soubemos que, por ocasião de um festim, obrigou uma dama romana a acompanhá-lo ao quarto. (…) Conhecem vocês o banquete dos Doze Deuses que organizou secretamente e no qual todos os convivas fantasiaram-se de divindades do Olimpo? Eis aqui a lista dos participantes dessa festa sacrílega e licenciosa. (…) Eis os nomes das mulheres que Otavio seduziu”.

Em 32 a.C., Marco Antônio enviou a Otávia uma carta em que a repudiava, ordenando-lhe que deixasse sua casa. Otávio aproveitou a ocasião para desferir o golpe decisivo. Buscou o testamento de Marco Antônio confiado às vestais. Percorreu-o e marcou os trechos mais suscetíveis de provocar indignações. Reuniu o Senado e, fingindo deslacrar o documento, leu as passagens em que Marco Antônio distribuía a seus filhos egípcios os reinos orientais e pedia para ser enterrado em Alexandria junto a Cleópatra. O horror foi geral. Mesmo os amigos que Marco Antônio ainda tinha em Roma dele se afastaram. Quando Otávio declarou guerra à egípcia, suas troças faziam a alegria dos romanos: “Marco Antônio não passa de um fantoche, vítima dos filtros da estrangeira. (…) Não precisarão combater nenhum exército, só o eunuco Mardion, a cabeleireira Iras e a ama Charmion, os únicos poderosos em Alexandria”.

As duas frotas encontraram-se no golfo do Ácio, no noroeste da Grécia, no dia 2 de setembro de 31 a.C. Depois de um longo e decisivo combate, os navios de Otávio derrotaram os de Cleópatra e Marco Antônio. O casal conseguiu fugir e ganhar Alexandria. Sabiam que os dias de liberdade estavam contados, mas ainda assim entregaram-se a mais prazeres extravagantes. Com seus amigos, fundaram uma nova associação, “A Espera da Morte em Comum”, e passavam alegremente o tempo como se cada noitada fosse a última.

Na primavera do ano seguinte (30 a.C.), Otávio tomava Alexandria, ocupada sem grandes dificuldades. Marco Antônio e Cleópatra tentaram, cada um de seu lado, ainda um pacto, mas Otávio recusou-se a qualquer negociação. Cleópatra já se preparara para a morte: na torre-mausoléu (munida de janelas) que construiu para si, ordenou que reunissem tudo o que possuía de mais precioso, jóias, ouro, móveis, perfumes e uma grande quantidade de tochas e estopas.

Na noite que precedeu a morte de Marco Antônio, os clamores de uma multidão em regozijo e os sons harmoniosos de instrumentos de música espalharam-se por Alexandria. Essa multidão invisível atravessava a cidade e o barulho se estendia de ponta a ponta. “É o sinal”, comentavam os alexandrinos, “de que Dioniso abandonou Marco Antônio, que sempre quis se assemelhar a ele.”

Pela manhã, Cleópatra refugiou-se com duas de suas amas no mausoléu. Ordenou que trancassem a porta e dissessem a Marco Antônio que se matara. O general entendeu que ele também devia morrer. Atingiu o ventre, mas não faleceu de imediato. Neste momento, chegou o secretário de Cleópatra anunciando que ela continuava em vida. Marco Antônio, agonizante, pediu para ser levado ao mausoléu. “Cleópatra apareceu à janela”, contou um servo, “mas não conseguiu abrir a porta. Pela janela, desceu uma corda à qual amarramos Marco Antônio. As três mulheres, puxando a corda com as mãos, alçaram com muita dificuldade nosso general moribundo e coberto de sangue.” Cleópatra recebeu-o e, estendendo-o ao solo, rasgou suas roupas, arranhou seu peito e suas faces, abraçou o moribundo chamando-o de seu senhor, seu esposo e seu imperador. Marco Antônio pediu uma taça de vinho, bebeu e, num último suspiro, aconselhou a Cleópatra que salvasse sua vida se pudesse fazê-lo de maneira honrada.

Otávio, imediatamente informado da morte de Marco Antônio, temia que Cleópatra ateasse fogo ao mausoléu. Queria-a viva para carregá-la em triunfo a Roma. Dois de seus amigos, Proculeio e Galo, foram encarregados de fazê-la sair da sepultura. Enquanto Galo encetava as conversações, Proculeio empurrava uma escada contra o muro, entrando na torre pela janela. Cleópatra foi trancafiada no palácio sob a guarda de um liberto de Otávio. Pálida, magra, o rosto e o peito feridos, febril com a infecção dos ferimentos que infligira a si mesma, a rainha do Egito não era mais que sua sombra quando Otávio decidiu-se a visitá-la. Uma última vez, Cleópatra tentou seduzir um general romano. Em vão. Informada de que preparavam o navio que devia conduzi-la a Roma com os filhos, pediu para voltar ao mausoléu. Trouxeram-lhe uma refeição suntuosa e depois ela trancou-se com as duas amas. Numa mensagem, pediu a Otávio para ser enterrada junto com Marco Antônio. Compreendendo o que se passara, Otávio enviou a guarda em toda diligência. Tarde demais: Cleópatra estava morta.

Entre aqueles que primeiro entraram na tumba, estava Olympos, médico particular de Cleópatra: “Eu sabia”, confiou, “que já há várias semanas nossa rainha decidira morrer. Em minha presença, testou, nos condenados à morte, várias espécies de veneno. Queria encontrar aquele capaz de provocar uma morte rápida, suave e sem alteração do corpo. Quando entrei no mausoléu, ela repousava sobre um leito de ouro, vestida com seus hábitos reais e carregando nas mãos as insígnias de poder macedônias e egípcias. A seus pés, Iras, a cabeleireira, expirava, e Charmion arranjava o diadema de sua senhora antes de morrer ela também. Não pude determinar a causa do falecimento das três mulheres, mas vi no braço de Cleópatra duas pequenas picadas. Sabia que a rainha sempre levava no cabelo um alfinete contendo veneno. Pensei também na mordida de uma víbora. Com efeito, um guarda me contou que, durante a refeição, um camponês veio trazer à rainha uma cesta de figos que podiam, talvez, ocultar uma serpente. Mas eu não encontrei nesse local hermeticamente fechado nem alfinete de cabelo nem víbora alguma”.

Cleópatra tinha 39 anos quando escolheu ir ao encontro do amado na morte. Compungido com sua fidelidade, Otávio autorizou seu enterro junto a Marco Antônio no mausoléu real. Uma só sepultura reuniu para a eternidade esses dois terríveis amantes, cujo romance transformou o curso da história do mundo romano.

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