Cineasta que toca a alma do povo diz: ‘Meus filmes precisam voar’

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O trabalho para Olavo chegou muito cedo, como chega para maioria das crianças negras do Brasil. De ajudante de armazém à atendente no bar de seu pai. Sua infância pode ser descrita a uma rua sem calçamento da cidade do interior da Bahia, onde brincava com seus irmãos: um meninos e duas meninas. Para Olavo as lembranças de sua infância são belas e saudosas “As crianças tinham mais lugares para brincar ao ar livre, não tínhamos tecnologia. Foi uma infância muito boa”.

Jovem e de uma família negra, saiu de Jequié para realizar seus sonhos, já que o preconceito na cidade o impossibilitava de progredir. “Era muito explícito porque tinha o clube da elite e o clube de baixa renda. Havia os espaços que as pessoas não se misturavam.”. Conta que as crianças estudavam nas mesmas escolas, todas públicas. Os grupos eram separados. Recorda também que algumas pessoas nem o cumprimentavam, embora fossem da mesma turma. “Eram os filhos e filhas da elite branca de Jequié”. Conta que sua adaptação em salvador foi muito boa, pois tinha tudo que não teve em Jequié. Ele só retornaria a sua cidade natal trinta anos depois. “Foi um asilo consciente, forma de demarcar meu campo. Uma cidade que nunca me deu muitas oportunidades, não tinha que ter diferenças com ela” relata.

Conquistado pela arte

Na juventude, Olavolavoo consumia literatura brasileira, russa e inglesa. Livros que teria ganhando de seus pais. Nos quais estavam nomes como: Dostoievski, Victor Hugo e muitos outros.

Em seus primeiros meses como universitário, a arte foi algo magnético. Olavo integrou o grupo de intervenções culturais da UFBA, o Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), que desmembrava o projeto Circuito Universitário de Cinema (CUC), responsável por despertar seu fascínio pelo cinema. “Surgiu um anuncio de Guido Araújo, cineasta, patrono do cinema baiano, ofertando um curso de cinema. No final do curso Guido disse que havia duas produções com locação no estado. Uma era “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, dirigida por Bruno Barreto, e a outra “Tenda dos Milagres”, dirigida por Nelson Pereira dos Santos. Guido, perguntou quem gostaria de trabalhar como estagiário. Eu sem pensar, levantei o braço”.

Como se estivesse revivendo aquele dia, Olavo conta que foi ao set de filmagens da produção de “Dona Flor” e não encontrou o diretor, então ele e mais dois amigos resolveram visitar a locação de “Tenda dos Milagres”, nas proximidades do antigo Maciel. “Trabalhei como assistente de direção de Emiliano Ribeiro, que, por sua vez, era assistente de direção de Bruno Barreto. Na prática, eu era segundo assistente de direção. Embora fosse classificado como estagiário, estava muito satisfeito com tudo. Apesar de ser um trabalho sem remuneração”. Um tempo depois achou que estava trabalhando muito e conversou com o produtor executivo para que fosse remunerado pelo trabalho.

Após o termino de “Dona Flor”, foi convidado para outra produção “Pastores da Noite”, de Marcel Camus (ganhador da Palma de Ouro de Cannes em 1959, com o filme “Orfeu Negro”). Trabalhou executando as mesmas funções do filme anterior, cuidando da figuração e afins. Isso o fez juntar dinheiro para comparar uma câmera fotográfica e montar seu próprio laboratório. Em um momento de agitação e horas de trabalho para finalizar seu quinto filme (Revolta dos Búzios), o cineasta recorda do seu primeiro longa gravado em 1993. Conta que o Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (IPAC) precisava de um fotógrafo para documentar a Serra de Piquaraçá em Monte Santo, que havia sido tombada pelo Patrimônio Nacional. No local, ouviu pela primeira vez uma das idosas nativas falarem sobre a história da Guerra de Canudos. Assunto que despertou sua curiosidade para estudar mais sobre o assunto.

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Após um período pesquisando, vai à terra do movimento liderado por Antônio Conselheiro, fotografa e lança o livro “Memórias Fotográficas de Canudos”, com aproximadamente mil exemplares, que esgotaram após quatro meses do lançamento.

Biografia

“Paixão e Guerra no Sertão de Canudos” (1993) ganhou dois festivais (Rio Cine e a Jornada de Cinema da Bahia) e foi lançado nos Estados Unidos. O filme é narrado por Jose Wilker. “Esse filme foi feito com muita dificuldade. Eu terminei de produzir o filme devendo vinte cinco mil dólares, ele custou cem mil e só captei setenta e cinco. Só consegui pagar a dívida quatro anos depois, com sua venda para TV Câmara. Foi um filme que contribuiu decisivamente para que Canudos deixasse de ser um tema marginal na história do Brasil”.

Mas nem sempre foi assim. Antes do seu primeiro filme, Olavo passou por dificuldades financeiras, o que o levou a trabalhar como operário em uma construção imobiliária. “Um amigo conseguiu o trabalho, entrei como operário e, passados três meses, não aguentei. Pedi demissão. Era um trabalho muito pesado. Quando procurei o arquiteto responsável ele me ofereceu uma vaga como fotografo. Fui contratado pelo Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (IPAC)”. Relata que estava finalizando sua graduação, e que nesse momento já tinha perdido o encanto pelo curso de geologia. Só queria concluir para obter o diploma.

quilombosEm seu segundo longa intitulado “Quilombos da Bahia” (2004) Olavo e sua equipe percorreram mais de 12 mil quilômetros pelo interior da Bahia, visitando centenas de comunidades negras, filmando em 69 localidades quilombolas. Ele afirma que “o filme rasgou o véu que cobria as comunidades quilombolas na Bahia”, contribuindo, inclusive, para revelar e mapear essas comunidades, o que favoreceu depois a implementação de políticas públicas básicas nessas localidades.

Seguindo sua filmografia encontra-se o filme “Abdias Nascimento: Memórias Negras”, cujo lançamento reuniu mil e quinhentas pessoas no Teatro Castro Alves segundo o diretor “Foi muito aplaudido pelo publico”. Ao narrar o momento, o cineasta revela uma curiosidade. Abdias disse para ele que queria assistir o filme. Três dias antes de seu aniversário de 94 anos ele estava na plateia do Teatro Castro Alves. “Foi uma felicidade imensa”.



Olavo enfatiza que seus filmes estão nas mãos das pessoas e que isso para ele é pleno. “Quando fazemos isso com o dinheiro público eu acho importante que as pessoas se apropriem. Para a estima de um povo, é fundamental o conhecimento da sua história. O povo brasileiro precisa saber que existe outra história que não é a dos duques, princesas e marechais. A história da Balaiada, do Pau de Colher, a Revolta dos Búzios, Revolta dos Malês e muitas outras. Quero contar essas histórias, por isso meus filmes precisam voar”, afirma.

Em seus filmes ele diz buscar fugir da redundância, suas narrativas são com elementos visuais, para que as pessoas reflitam. Segundo ele a linguagem visual tem condições de ter uma leitura mais circular “Ninguém lê uma imagem do mesmo jeito”. Para ele seus filmes estão distantes de ser uma linguagem experimental, afirma que quem busca contar história não experimenta. “Você até conta de formas diferentes mais sem experimentações abstracionistas”.

Em suas inspirações e influencias no cinema está o documentarista Silvio Tendler, “admiro não só a obra dele mais o seu posicionamento político”. Sobre as dificuldades como realizador, ele descreve que as tem o tempo inteiro, mas vale a pena quando o produto nasce. “Quem tiver a ilusão que em qualquer situação da vida tudo vai funcionar bem, está errado. As coisas às vezes têm que ser difíceis para valorizarmos” declara.

Um cineasta
negro

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No cenário atual estão surgindo diversas linguagens que ressignificam as narrativas de raça e gênero no cinema e audiovisual. De acordo com Olavo são demandas necessárias, pois o cinema feito no Brasil é majoritariamente branco. “É preciso se afirmar enquanto cineasta negro. Eu não sou apenas um cineasta, eu sou um cineasta negro”. Ao falar da família dá para notar seus olhos brilharem quando o assunto é a filha Mariana Ayana de 11 anos. Conta que apesar de muito nova, ela já tem um discurso afirmativo sobre sua cor, maturado e construído em conjunto com sua esposa, Luciene Maria, que é professora da Universidade Estadual da Bahia (UNEB). “Tenho muita esperança de que Mariana será uma mulher retada, vai construir muito para diminuir as desigualdades raciais e sociais. Um dia conversando com Luciene, falei que gostaria muito de presenciar como nossa filha seria quando adulta. Ela tem uma compreensão tão boa de ver e exercitar essas reflexões”.

O amor à produção cinematográfica e a gratificação por quem encontra na felicidade dos outros a sua. “Meus filmes representam molavo-buziosinha imagem. Eu não sou nada. Meus filmes é que são. Eu quero que eles voem e que as pessoas se apropriem. Isso é o que fica”.

Revolta de Búzios – O Filme

Batizada também como Revolução dos Alfaiates, Conjuração Baiana e Inconfidência Baiana, a Revolta dos Búzios torna-se filme documentário dirigido pelo cineasta Antônio Olavo e produzido por sua produtora Portfolium Laboratório de Imagens. Os heróis negros Lucas Dantas, Manoel Faustino, João de Deus e Luiz Gonzaga que não aparecem com detalhes nos livros de história oficiais, mas que lutaram, em 1798, pela implantação de uma república na Província da Bahia, são os protagonistas do documentário longa metragem que está em fase de finalização.

Texto de: Daiane Rosário

http://www.interiordabahia.com.br

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