‘O século terminou com a morte do Fidel’, diz historiadora

Professores analisam influências e legado do ex-presidente cubano, morto nesta sexta
Jornal do BrasilRebeca Letieri*

“Eu acho que a gente poderia hoje afirmar que o século 20 terminou com a morte do Fidel, a despeito das várias interpretações sobre o legado dele e suas complexas relações com o poder. O que não diminui a força simbólica que ele representou para toda uma geração, que se inspirou nessa ideia de revolução social”, diz a professora da UFF e historiadora, Marcia Maria Motta.

Fidel Castro Ruz (1927-2016), falecido aos 90 anos, foi idealizador, líder e realizador da Revolução Cubana de 1959, articulada desde 1952 e desencadeada em 1956, com a chegada de um pequeno grupo de jovens idealistas a Sierra Maestra, no Sul da ilha de Cuba. Sua revolução foi armada, e se tornou um marco histórico, inspirando movimentos sociais em todo o mundo. Antes dela, a ilha era apenas um quintal a 90 milhas de Miami, nos Estados Unidos, que ocupa, até hoje, o lugar de grande rival de Cuba.

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“Falando de uma maneira acadêmica, até o inicio dos anos 1960, quando se falava em revolução na America latina, pensava-se na revolução bolchevique. Uma revolução feita por um operariado organizado e disciplinado por uma liderança esclarecida, como foi na União Soviética, era improvável na America Latina. Portanto, as oligarquias latino-americanas e brasileiras sempre exploraram o anticomunismo ideologicamente, e sempre acionariam o fantasma do comunismo, para reprimir o movimento operário. A revolução cubana apresenta outro modelo de revolução factível, e exequível, e isso muda tudo. A juventude dos anos 1960 se inflama com o exemplo cubano. Porque ali estava um modelo de revolução que podia dar certo”, explica Williams Gonçalves, professor de relações internacionais na Uerj.

O novo regime erradicou o analfabetismo, deu escola para todas as crianças, investiu em saúde pública e reduziu drasticamente a corrupção no poder público. Embora muitas das novas medidas, como a execução de dezenas de corruptos, gigolôs e informantes da política de Fulgêncio Batista, fossem alvos de crítica, incluindo muitos de seus seguidores.

“Você pode até questionar o socialismo, se o socialismo cubano foi bem sucedido, mas você não pode questionar o idealismo dele [Fidel]. Nunca se viu Fidel Castro usufruindo de riqueza. Foi um homem que viveu em Cuba ao lado de seu povo todo esse tempo. Nessa conjuntura pobre que nós vivemos de falta de líderes, o Fidel Castro entra para a história da America Latina, no panteão ao lado de um Simon Bolivar. Apesar de ter sido o líder revolucionário de uma pequena ilha junto dos EUA, as suas ideias e o seu exemplo percorreram toda a America latina”, destaca o professor da Uerj.

O governo norte-americano impôs o embargo comercial – que incluía até remédios -, e persiste até hoje, passados mais de 50 anos. Ao longo desses anos, foram 638 as tentativas de assassinar o ex-presidente de Cuba, promovidas pela CIA, Agência de Inteligência Central dos EUA, desde franco-atiradores, explosivos colocados em seus sapatos, veneno injetado em um charuto, até uma pequena carga explosiva dentro de uma bola de baseball. Maria acrescenta que, mesmo sofrendo vários atentados numa ilha tão pequena perto dos norte-americanos, “ele foi capaz de fazer com que as pessoas sonhassem com um mundo diferente”.

“Nós temos dois marcos importantes na história: o 11 de setembro, e a partir de ontem, a morte do Fidel. Nas duas situações, os EUA é revisitado, seja pela critica ao monopólio do poder, e sua expressão no mundo, que se coloca a partir do atentado. E o outro fato é a própria morte do Fidel, que sempre foi visto como o melhor exemplo de intelectual e político que fez frente e questionou o poder incontestável dos EUA”, acrescentou Maria.

Para Williams, as críticas a Fidel fazem parte da passagem do tempo, a cada nova geração, as exigências mudam, crescem, e, segundo ele, acaba sendo natural que “tudo aquilo que foi conquistado vai diminuindo com o passar do tempo”.

“Mas eu não estou falando isso para condenar as pessoas. É natural que isso aconteça. E agora, eu acredito que com o desaparecimento de Fidel as mudanças em curso em Cuba vão se acelerar. A abertura da economia, e o estabelecimento das relações diplomáticas com os EUA, daqui a pouco o fim do bloqueio econômico, são parte de um novo contexto”, disse.

William afirma ainda que o comunismo em Cuba deve ter um olhar especial, devido à proximidade com os Estados Unidos, e que mesmo com uma abertura econômica, o país jamais será o mesmo que foi antes da revolução.

“Eu creio que qualquer liderança hoje em Cuba sempre terá muito pudor ao lidar com os americanos. Ela jamais voltará a ser o que era antes da revolução. Fidel deixou um legado imutável. Uma coisa é estabelecer relações diplomáticas com os EUA, o que é uma atitude natural e madura. O que não quer dizer que Cuba vai voltar a ser o que era. Fidel elevou a auto-estima dos cubanos de uma maneira que isso não se reverte”, disse o professor de relações internacionais da Uerj, Williams Gonçalves.

A historiadora Maria Motta finaliza dizendo que independente das críticas, “todas as pessoas que se sentem representadas pela esquerda estão tristes hoje”.

*do programa de estágio do JB

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