Ataque dos Estados Unidos na Síria pode mudar rumo de conflito

Agência ANSA

Durante os seis anos do conflito, completados no último mês de março, os Estados Unidos sempre criticaram o governo do presidente, Bashar al-Assad, pedindo sua saída, mas limitavam seus ataques em território sírio às áreas dominadas pelos grupos terroristas Estado Islâmico (EI, ex-Isis) e Frente al-Nusra, braço da Al-Qaeda na Síria.

No entanto, desde que o atual presidente, Donald Trump, assumiu a Casa Branca, o discurso contra Assad foi amenizado e o foco era total contra o EI. Porém, um ataque químico supostamente cometido pelo regime de Assad, e que deixou mais de 80 mortos, foi uma nova peça no tabuleiro que parece ter mudado a postura do governo Trump.

Dizendo ser uma resposta à ação, Trump ordenou o primeiro ataque direto dos EUA contra uma base militar de Assad. Para o professor de Relações Internacionais da Faculdade de Belas Artes, Sidney Ferreira Leite, o ataque desta quinta-feira (6) significa uma mudança de rumo muito importante no conflito “não pela sua dimensão propriamente militar”, mas sim de uma “mudança de estratégia do governo Trump”.

“Voltamos a um cenário complexo, de dois anos atrás, em que os EUA com seus aliados visavam desestabilizar ou até mesmo derrubar o governo de Bashar al-Assad e do outro lado Rússia, Irã e o Hezbollah dando sustentação externa ao governo Bashar al-Assad – isso lidando com os autores estatais”, afirma Leite à Ansa.

“E internamente, acho que a consequência mais importante é que o Estado Islâmico e a Al-Qaeda saem de uma posição de defesa e de tentativa de sobreviver para um cenário mais confortável, que pode levar inclusive a uma ofensiva sobre as cidades que o Bashar al-Assad retomou nos últimos meses”, acrescenta o professor.

Já o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), Juliano da Silva Cortinhas, aponta, além de uma mudança de postura do governo norte-americano, que o ataque de ontem também pode significar um “tiro de aviso”.

“Até agora tivemos o primeiro ataque, bastante localizado, que pode significar um sinal que os americanos estão inclinando-se de mudar de direção, como se fosse um tiro de aviso. ‘Olha, nós estamos seguindo de perto o que está acontecendo e estamos cada vez mais inclinados a atuar, a mudar o nosso padrão de atuação em relação a Síria’. Então, essa é uma segunda perspectiva”, ressalta Cortinhas à Ansa.

Para a economista e professora na Faculdade de Economia e Administração da USP, Lenina Pomeranz, é “difícil prever” quais serão os próximos passos de Trump e o que de fato significa essa sua postura de mudança.

“Em relação aos seus próximos passos, é difícil prever dada a volatilidade do seu comportamento e a imprevisibilidade de suas ações, por um lado; e sem entrar em considerações sobre as opiniões e pressões a que está submetido no exercício do seu mandato – e a necessidade de afirmar-se como mandatário do país, num quadro maior de transformações da geopolítica internacional, por outro lado”, explica a economista.

Relação EUA x Rússia

Desde o início da guerra síria, Rússia e EUA tiveram papéis bem diferentes no conflito sírio. Enquanto o governo de Vladimir Putin sempre se mostrou um fiel aliado de Assad, a quem considera fundamental para a transição política pacífica no país quando os conflitos cessarem, Obama e os aliados europeus sempre condenaram essa postura e chamam Assad de ditador.

No entanto, com a eleição de Trump, as acusações de que o novo presidente dos EUA era “amigo” de Putin – e até mesmo de uma suposta interferência russa nas eleições presidenciais -, deixaram uma “névoa” sobre qual seria a postura norte-americana com o governo republicano. Mas, a julgar pelas reações iniciais de ambos o governo, o clima tenso entre os dois Estados continuará.

“Se a gente for pensar em política de Estado, era muito incoerente a proposta do Trump de só focar no EI e deixar o governo de Bashar al-Assad permanecer. Isso entre outros aspectos, descontenta muito seus fortes aliados na região, notoriamente, Arábia Saudita e Israel. Então, não me surpreende a ação americana, do Estado americano. Isso aconteceria mais cedo ou mais tarde porque os interesses do Estado americano e do Estado russo, não só nessa região, são muito divergentes”, ressalta Leite.

Já Pomeranz afirma que as relações entre as duas nações já “não estavam bem” e “seguramente, o bombardeio americano na Síria as tornará piores”. “As informações dizem que os russos foram informados da ação e que cuidados foram tomados pelos militares americanos para não afetarem o pessoal russo que está em solo sírio. O que parece indicar que não houve a intenção, da parte dos americanos, de executar uma ação maior, que envolvesse a Rússia”, diz a professora da USP ressaltando que os primeiros sinais mostram que os russos “não estão dispostos a intervir militarmente”.

Para o professor da UNB, no entanto, a solução do conflito na Síria deve ser buscada de maneira conjunta pelas duas nações. “Já houve declarações de lado a lado, os EUA condenando um possível ataque químico – que eu entendo que eles ainda não apresentaram provas suficientes de ataque – e Rússia e o regime do Bashar al-Assad declarando que não houve provas consistentes e condenando o ataque americano na questão da cidadania. Então, essa retórica bastante acirrada é muito comum nesse início de negociação”, diz Cortinhas.

“Agora, eu entendo que é ainda mais provável uma ação coordenada entre EUA e Rússia – não só pela possibilidade de que uma escalada leve a um conflito que a gente não conhece as dimensões”, acrescenta.

Motivos internos? 

Mas, por que Trump teria mudado sua postura de maneira tão rápida sobre um conflito? Apesar de concordar que ainda é cedo para entender todo o cenário, os especialistas afirmam que pode haver um componente interno na questão.

Desde que assumiu o cargo, Trump vem caindo na popularidade entre os norte-americanos e vem sendo criticado até mesmo por aliados.

Para o professor de relações econômicas internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Francisco Américo Cassano, a decisão de atacar um outro país o surpreendeu “tendo em vista que ele havia afirmado que não faria nenhuma interferência em outros países”.

Cassano acredita que a ação militar de Trump foi uma “cortina de fumaça” para desviar o foco da “amizade” entre os presidentes de Rússia e EUA. “Eu acredito em cortina de fumaça porque, se isso não se confirmar isso e for uma atitude precipitada de Trump, aí realmente vamos confirmar que ele é um desequilibrado. E um presidente dos EUA desequilibrado é um perigo para a humanidade”, acrescenta o professor.

Já Cortinhas acredita que é possível que o movimento tenha sido pensado em melhorar a imagem de Trump no curto prazo entre a opinião norte-americana.

“A gente pode trabalhar com a possibilidade de que o Trump tenha feito isso por razões domésticas. Ele está mostrando pra dentro um afastamento em relação à Rússia, querendo dizer que ‘eu não obedeço aos russos’, ‘não devo nada aos russos’, tomando decisões completamente autônomas. E nesse sentido, esse primeiro ataque cumpre essa missão, de passar esse recado interno”, diz o especialista da UNB.

Para Sidney Leite, o ataque de ontem “foi muito bom para o Donald Trump”.

“Primeiro, porque ele encontrou um motivo para entrar novamente no jogo, o discurso dele foi todo focado em ação humanitária – embora, na minha avaliação, a fala dele é totalmente incoerente com o que ele diz, com o que ele pratica e com que os Estados Unidos praticam já há algum tempo. Mas, ele recupera uma certa popularidade interna, que ele vinha perdendo por conta de sua desastrosa agenda que propôs para o país e que vem se mostrando ineficaz”, diz o professor.

“Então, conjunturalmente, esse ataque de ontem, tira um pouco o foco interno, joga no foco externo em que ele aparece defendendo uma causa justa. Consequência de tudo isso é que a suposta relação de amizade decantada por ambos [Trump e Putin] se desmanchou no ar, ela não existe mais”, finaliza.

No entanto, para Pomeranz, a mídia ocidental acaba “demonizando” Putin, vendo nele “intenções agressivas da Rússia”.

“Com isto, aparentemente bastam ‘convicções’ de que dizem portadores as organizações de inteligência americana e os próceres ocidentais, para aceitar argumentos sem evidências ou provas mais concretas das acusações que são feitas, entre elas a de interferência das eleições americanas”, acrescenta.

http://www.jb.com.br

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