O PROCESSO DE TRANSMISSÃO DO CONHECIMENTO MUSICAL NO ILÊ AXÈ OPO AFONJÀ

Adálvia de Oliveira Borges

 

O Candomblé, religião trazida pelos escravos africanos, durante o período de colonização e Império brasileiros, isto é, entre os séculos XVI e XIX, tem na música um fator preponderante para a realização dos seus cultos e, desde então, ela vem sendo transmitida através das gerações chegando até os nossos dias.

Os escravos vindos da África, provenientes de várias regiões, continuaram cultivando seus deuses e seus costumes, apesar de estarem submetidos a condições muitas vezes subumanas, separados de suas famílias e de seus grupos. Mesmo assim, conseguiram manter seus costumes, língua e religião, constantemente renovados pelo fluxo de novos escravos das mesmas etnias. Essas tradições foram mantidas através da oralidade, da transmissão de pessoa para pessoa, dos mais velhos para os mais novos e assim foi possível preserva-las, adaptando-as ás novas condições de vida e cultura.

Buscamos na nossa pesquisa, investigar a continuidade da transmissão oral das músicas e ritmo dentro de uma comunidade religiosa afro-brasileira, tanto entre adultos como entre crianças, procurando também encontrar outras manifestações musicais, ligados ou não ao ritual, e possíveis mudanças, inovações ou adaptações devido ao processo de desenvolvimento cultural da sociedade como um todo.

Na introdução do trabalho justificamos nossas intenções e as razões que nos levaram escolher esse tema e através de pesquisa bibliográfica nas áreas de Educação Musical, Etnomusicologia e Antropologia, procurando compor que, passando por uma explanação resumida dos dois processos de transmissão do conhecimento musical, escrito e oral, chegasse ao tema central da pesquisa através de um caminho no qual descremos a cultura negra e seu elemento maior na preservação dessa mesma cultura: a religião. Abordamos a cultura negra na Bahia, descrevendo o Candomblé Nagô e a sua cerimônia, o papel da música dentro do culto e o seu processo de transmissão através da oralidade, assim como a influência. Do negro na cultura brasileira.

Em um capitulo específico, explicamos o encaminhamento da nossa pesquisa de campo, justificando a nosso trabalho final e o método desenvolvido para a composição do mesmo.

Através dessa investigação pudemos observar que crianças no Candomblé ou são freqüentadoras ou aí estão por necessidade de fazerem o santo, por motivo de saúde e outros, como qualquer adulto, apenas são tratadas de uma maneira especial devido à sua ´pouca compreensão do processo, não sendo muito usual a presença de crianças feitas – de – santo em roda de xirê, por exemplo, a não ser em candomblés menos tradicionais. O que podemos observar com muita freqüência, foi a presença de meninos junto com tocadores, olhando a maneira de tocar os atabaques.

Finalmente, chegamos à segunda parte do trabalho onde inicialmente descrevemos a casa de culto afro-brasileiro, o Ilê Axé Opo Afonjá, situado em uma grande roça em São Gonçalo do Retiro, dedicado a Xangô, onde descobrimos que muita coisa se pode fazer com música e pela música e sua transmissão, dentro de um terreiro de Candomblé, unindo as duas vertentes: o sagrado e o profano.

Após relatarmos sua história e suas festas, os seus espaços, sagrado e profano, que aí convivem harmoniosamente, passamos a relatar o processo musical e sua forma de transmissão, o que nos foi mostrado pela observação e pelos depoimentos de diversas pessoas da comunidade, principalmente Mãe Stella, Iyalorixá do Axé, e Prof. Walfram diretor da Escola Eugênia Ana dos Santos, escola esta que se originou das primeiras manifestações pedagógicas dentro do afonjá, desenvolvido por um grupo de pessoas ligadas à comunidade tendo à frente um de seus membros mais relevantes, Mestre Didi, (Deuscóredes M. Santos) filho de Mãe senhora, Oxum Miwá, uma das sucessoras de Mãe Aninha (Eugênia Anna dos Santos, Oba-Biyi), fundadora do Axé em 1910.

Este grupo constituído de profissionais, pedagogos, peritos em educação, entre os quais a antropóloga Juana Elbein dos Santos e o Prof. Marco Aurélio Luz estabeleceram um projeto, com o apoio da SECNEB (sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil), que permitia uma educação adequada das crianças vinculadas a este e outros terreiros. Foi então criada a Mini Comunidade Oba Biyi, em 1977, da qual descrevemos o método de trabalho, que procurou dar as crianças um sentido de auto-estima e auto-percepção, fazendo-as perceber o seu próprio universo cultural.

Procuramos descrever, como nos foi revelado, o desenvolvimento das muitas atividades com música sob direção de mestre Didi, autor das recriações das lendas iorubanas, que eram encenadas com as crianças, enriquecidas pelos cantos em língua nagô e transmitidas pelo próprio Mestre Didi e pelos professores que por ele eram treinados. Várias lendas foram trabalhadas e encenadas, como a Vendedora de acaçá, Kubá e o presente da Boa Menina, chuva de Poderes, entre outras, peças estas que infelizmente não ficaram a nosso alcance, pois não foi possível entrevistar Mestre Didi e as pessoas que delas participaram pouco se lembram ou não quiseram falar sobre elas, talvez por falta de consentimento do próprio Mestre Didi.

Da Mini Comunidade Oba Biyi e suas manifestação artísticas, passamos a descrever o seu sucessivo, a Escola Eugênia Ana dos Santos, agora com o projeto “100 anos  de Xirê” da professora  Graça Rodriguê, pessoa iniciada no Candomblé e uma das colaboradoras do projeto anterior, sob a supervisão da Iyalorixá Mãe Stella de Oxossi, Ode Kaiode, projeto este com uma preparação metodológica igual à das escolas comuns, mais sistemático, porém voltado para a cultura negra. O qual tenta resgatar a pedagogia gerada no decorrer dos anos pelo Candomblé, preservando a cultura dos antepassados, cuja transmissão foi feita através da oralidade, assistemática, permitindo a continuidade dos seus valores, por meio do culto, artes, mitos e música.

A música e a transmissão do seu conhecimento no contexto sagrado do Afonjá, foi abordado em capitulo sob o título de “formas informais de transmissão do conhecimento musical”. Pelo que nos foi comunicado não é a possibilidade de haver outros modos de transmissão do conhecimento, senão através da oralidade, apesar do processo de modernização, da tecnologia, de estarmos no limiar do século XXI, e da mídia, através da televisão e do rádio, estar dentro das casas dos descendentes dessa cultura tão caracterizada. Seus participantes já não são apenas descendentes de escravos. Outros tipos étnicos são vistos dançando nas rodas de Xirê e “bolando no santo”. Pessoas que têm influências de uma cultura sistematizada e estratificada, que dentro do barracão, nas obrigações para o seu santo, esquecem o que ficou lá fora e se enquadram no processo. Essas pessoas aprendem as cantigas do mesmo modo que ouras pessoas do Candomblé: através da oralidade e certamente a falta de qualquer conhecimento da língua nagô, já familiar para as pessoas ligadas à comunidade, torna-se esse aprendizado mais penoso.

Podemos constatar que dentro do Axé a transmissão do conhecimento sagrado continua na oralidade, apesar da iyalorixá ser uma pessoa de idéias progressistas e não ser contra a modernização da transmissão do conhecimento através da escrita e das pessoas que chegam para fazer o “santo” sentirem a necessidade de métodos mais sistematizados,. Isto devido a vida moderna, corrida, onde não se tem tempo para um aprendizado mais demorado em contato com as pessoas mais velhas do Axé.

Descobrimos com nossa pesquisa um fazer musical criativo e espontâneo entre crianças e adolescentes moradoras do Axé, a maioria delas tendo participado da mini-comunidade Oba- Biyi, que se dedicam a fazer música. Eles constituem o grupo de jovens compositores do Axé. Compõem  músicas singelas sobre pessoas e temas ligados a comunidade, cujos padrões rítmicos estão baseados nos ritmos do Candomblé, sem ninguém para os orientar nas suas criações musicais. Algumas das suas composições foram coletadas e transcritas por nós e anexadas ao nosso trabalho final de dissertação.

Outra manifestação musical encontra-se na existência de um grupo coral, constituído por meninas pertencentes ao Axé, dão apoio aos cantos durante as festas do calendário anual do Candomblé, tornado-as mais bonitas, grupo este que já existe a certo tempo e que se renova periodicamente.

Finalmente, descrevemos as realizações artístico-musicais do projeto “100 anos de Xirê”. Neste projeto, as crianças tiveram a oportunidade de desenvolver atividades artísticas e musicais, sob orientação do Professor Walfran, dentro do programa escolar, havendo inicialmente um trabalho de sensibilização musical, utilizando músicas tradicionais do cancioneiro popular e a encenação  de jogos dramáticos, levando as crianças a entenderem os valores existentes dentro da sua cultura. Montou-se um espetáculo em comemoração aos cem anos da Abolição da escravatura, intitulado  “100 anos de Xirê”, como projeto educacional, onde participaram os alunos da Escola e as crianças do Axé. Fazia parte desse espetáculo o rancho da burrinha, com elementos folclóricos de um rancho tradicional de Reis, continuando com diversas dramatizações nas quais foram utilizados os materiais musicais de cantigas de ninar, pregões populares, cantigas de trabalho, cantigas de divertimentos (como capoeira, maculelê, samba de roda) carnaval, com suas marchas tradicionais, e o afoxé, que é o Candomblé no carnaval, mostrando a contribuição do negro na música popular. Tentou-se também fazer uma iniciação musical sistemática, pelo mesmo professor, no sentido de dar as crianças uma base de teoria musical, o que não foi bem aceito pelas crianças.

Finalmente tivemos a oportunidade de participar de um espetáculo, simples na  encenação, mas que contou também com a participação criativa das crianças na composição do mesmo, que foi a montagem da lenda iorubana, “ A criação do mundo” com movimentação cênica e músicas em ioruba, jogos infantis e músicas do cancioneiro popular infantil, apresentada como trabalho final do ano letivo, em 1995. Neste trabalho, pudemos observar o método de transmissão do conhecimento através da oralidade, como um todo: a letra e seu significado mítico e a música dos orixás que aparecem como personagens no espetáculo, e como as crianças absorveram o conhecimento através do ouvir repetir.

Na mesma ocasião foi criado o coral das crianças da Escola, coordenado pelas professoras Marinalva de Almeida e Aída Costa, com a colaboração do regente – coralista, Marcos Santana, para trabalhar com elas, a pedido de Mãe Stella, grupo este que recebeu o nome de Coral Faraimará. (este Coral está em via de reestruturação, atualmente).

No lado do ritual sagrado do Candomblé, a importância da música ainda é uma realidade dentro do cotidiano do Ilê Axé Opo Afonjá e a continuidade do modelo se mantêm através do processo de transmissão oral do conhecimento, apesar da modernização e da tendência de se procurar modificar esse conceito tradicional.

Porém do lado profano existem manifestações que apesar de intimamente ligadas ao sagrado, tem se desenvolvido mesmo com as dificuldades motivadas pela carência de recursos humanos e financeiros para levarem os projetos adiante, principalmente os relacionados com a música.

Ressaltamos a importância da pesquisa e da valorização do trabalho musical fora dos rituais, para que se possa desenvolver outros gêneros musicais valiosos dentro dessa e de outras comunidades, no que um intercâmbio entre as sociedades comunitárias afro-brasileiras e a sociedade maior em que estão inseridas seria de grande valia para o desenvolvimento desse fazer musical, e se poderia trazer para o conhecimento público, os novos valores enriquecedores da cultura de massa.

 

Trabalho apresentado no VI Encontro Musical da ABEM, realizado em Salvador em 1997, publicado pela Associação Brasileira de Educação Musical, Serie Fundamentos Nº 4, outubro de 1998

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