Resenha

Música e Neurociências é um Artigo feito a seis mãos e três cérebros, da autoria  do Doutor em Neurologia Mauro Muskat, da Musicoterapeuta e Mestre em Neurociências Cleo M. F. Correia e da Musicoterapeuta Sandra M. Campos. Nesse Artigo eles discorrem sobre as várias faces entre música e neurociência, com destaque para a importância dos estudos em relação á organização cerebral das chamadas funções musicais. Defendem a tese de que o interesse crescente nas pesquisas da relação música e cérebro são reflexos de dois fatores: o primeiro relaciona-se à introdução recente de novas técnicas de neuroimagem, como a tomografia com emissão de pósitrons (TEP) e a ressonância magnética funcional (RMF), que permitem “visualizar” as mudanças funcionais e topográficas da atividade cerebral durante a realização de funções mentais complexas. Assim, já é possível estudar as mudanças regionais do fluxo sanguíneo do metabolismo e da atividade elétrica cerebral durante tarefas de natureza cognitiva, como, por exemplo, enquanto um individuo processa estímulos sonoros, sejam estes meros sons puros senoidais, ruídos, padrões rítmicos ou mesmo “ música” , sua acepção amplia.

O Artigo está dividido em seis partes: na primeira, seguindo a práxis, os autores apresentam um resumo das questões expostas. Na segunda, iniciam a abordagem de música e cérebro. Assim a música é apresentada, considerada, independente de toda conotação estético-cultural que esta envolve, como todo o processo relacionado à organização e à estruturação de unidades sonoras, seja na sucessão de alturas (melodias), seja nos seus aspectos temporais (ritmos), ou na organização vertical harmônica e tímbricas dos sons, entendendo por funções musicais o conjunto de atividades motoras e cognitivas envolvidas no processamento da música. Já o cérebro, é visto como um sistema complexo de áreas específicas e não específicas, colaborando á integração das funções cognitivas, afetivas e sensoriais. Ainda nessa parte do Artigo é feito um breve histórico sobre a maneira que a ciência vê a relação entre o cérebro e as funções musicais. “Trabalhos verdadeiramente pioneiros só foram realizados na segunda metade do nosso século, principalmente em pacientes de epilepsia”. Dentre tais trabalhos eles destacam os de Critchley na descrição da epilepsia musicogênica; os de Penfield, que durante estimulação elétrica cerebral, por procedimentos neurológicos, descreveram alucinações auditivas complexas quando da estimulação do giro temporal superior; os de Wada e Rasmussem, que utilizando o teste de WADA, com a inativação temporária de um hemisfério cerebral pela injeção intracarotídea de amital sódico, verificaram, em alguns casos, a dificuldade para cantar, apesar da preservação da fala; o de Kimura com as provas de estimulação auditiva (dicótica) de melodias demonstrando a superioridade do hemisfério direito para o processamento melódico, e os trabalhos mais recentes de Zatorre e Chauvel sobre as disfunções musicais em pacientes submetidos a lobectomia temporal.

Na terceira parte do Artigo que tem por subtítulo Música e Neuroimagem os autores retornam a representação da música: “A música, mais que qualquer outra arte, tem uma representação neuropsicológica extensa. Por não necessitar, como música absoluta, de codificação lingüística, tem acesso direto a afetividade, ás áreas límbicas, que controlam nossos impulsos, emoções e motivação. Por envolver um armazenamento de signo estruturados, estimula nossa memória não verbal( áreas secundárias). Tem acesso direto ao sistema de percepções integradas, ligadas ás áreas associativas de confluência cerebral, que unificam várias sensações, incluindo a gustatória, a olfatória, a visual e a propriooceptiva em um conjunto de percepções que permitem integrar as várias impressões sensoriais em um mesmo instante, como lembranças de um cheiro ou de imagens após ouvir determinado som ou determinada música. Também ativa as áreas cerebrais terciárias, localizadas nas regiões frontais, responsáveis pelas funções práxicas de sequenciação, de melodia cinética da própria linguagem, e pela mímica que acompanha nossa reações corporais ao som”. Ainda nesse tomo os estudos sobre neuroimagem são apresentados e as conquistas recentes nesse campo foram minuciosamente esboçadas.

A neuroimagem tem contribuído para novos e interessantes achados, enfatizando-se a importância da lateralização hemisférica na percepção musical. Afirmam que tais trabalhos sugerem certo grau de independência funcional e anatômica para o processamento (ou para estratégia de processamento) dos vários parâmetros sonoros. Nesse sentido, foi possível mapear, pelos trabalhos com TEP, as mudanças na ativação metabólica durante o processamento perceptivo e cognitivo dos constituintes da música.

A música medieval, renascentista e a contemporânea, pensamento, espírito e cérebro tem destaque na quarta parte. “A música, basicamente temática, com tempo métrico, sendo pulso, marcado na música barroca como o tique taque do relógio, reflete o pensamento determinista de tendência racionalista e materialista”. Música é também linguagem e mereceu criteriosa atenção na quinta parte onde linguagens musical e verbal tiveram seus campos delimitados nas funções neurológicas. Do ponto de vista neuropsicológico, as estruturas envolvidas para o processamento musical são funcionalmente autônomas e diferentes daquelas envolvidas com a linguagem, isto é, fala, leitura e escrita. Pesquisas em pacientes com lesão cerebral têm mostrado que a perda da função verbal (afasia) não é necessariamente acompanhada de perda das funções musicais (amusia). A existência de afasia sem amusia e a de amusia sem afasia indicam uma autonomia funcional dos processos neuropsicológicos inerentes aos sistemas de comunicação verbal e musical e uma independência estrutural de seus substratos neurobiológicos.

Finalmente no sexto tomo ou parte desse auspicioso trabalho, os autores nos apresentam o que para nós é um breve e muito interessante estudo de caso para os estudantes e profissionais das áreas de musicoterapia e neurociências: Epilepsia e Música. De inicio chamam a atenção para o fato de que na analise das relações entre a epilepsia e a música, dois aspectos devem ser ressaltados: a epilepsia musicogênica e o estudo das funções musicais em pacientes portadores de epilepsia parcial. A epilepsia musicogênica corresponde à ocorrência de crises epiléticas desencadeadas por estímulos musicais. Não constitui uma síndrome epilética, razão pela qual deve-se falar em “crises epiléticas desencadeadas por música”. No trabalho original de Critchley, descrevem três tipos de crises de epilepsia denominada de acústico-motora. Um tipo seria a resposta à surpresa ou ao susto; o outro, perante estímulos musicais intoleráveis (para o indivíduo), evocadores ou que produzissem desagrado; e o terceiro tipo, mais raro, provocado por um estímulo de caráter monótono. O fato de diferentes tipos coexistirem significa um indício fisiopatológico particularmente importante, por permitir a interpretação da epilepsia musicogênica como “efeito da música em um cérebro epilético”.

Nas considerações finais é feito um importante apelo no sentido de que os trabalhos de música em neurociências surjam da interação de músicos, musicoterapeutas, neurologistas, neurofisiologistas, possibilitando a ampliação de nossos horizontes em uma prática que integra profissionais que antes tinham suas atividades seccionadas. Isto poderá permitir, do ponto de vista dos autores desse Artigo, uma comunicação mais eficiente, inclusive em nível musical e estético propriamente dito, com doentes em busca de contatos, isolados da comunicação por suas disfunções cerebrais e mentais.

No nosso entendimento este é um trabalho bem estruturado e rico em informações, com conteúdos específicos da música e das neurociências. Esse artigo é uma importante ferramenta de pesquisa e ponto de partida para quem pretende alçar vôos mais altos. Nele tanto o estudante quanto o profissional de Musicoterapia e áreas afins poderá acrescentar ao seu repertório informações e questões que instigam e inquietam o espírito crítico e científico. É uma obra para aqueles que optaram pelo caminho da ajuda a pessoas com deficiências mentais ou doenças cerebrais. O trabalho na nossa opinião atinge o seu principal objetivo que é trazer a música para as ciências da saúde a partir de exposição e fundamentações teóricas e práticas que tiram a música de um papel meramente hedonista e permite, esperamos, a neurociência ir além do enfoque racionalista. A arte assim poderá contribuir no trabalho integrado com seus aspectos subjetivos tão necessários a existência.

*Desiderio Bispo de Melo, 49 é Pós graduando em musicoterapia do CEPOM – Ba.

Bibliografia

Revista Neurociência 8(2): 70 – 75, 2000

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